sábado, 19 de abril de 2008

Avec-papiers

Pára tudo! Ontem saiu minha documentação de permanência na França... Agora sou uma imigrante legalizada.

Gente sem glamour

Hoje eu soube que todos os dias tem suicida no transporte público em Paris. É muita gente morrendo... claro, não chega a uma pálida sombra das mortes por homicídio no Brasil. Mas parece que a moda pegou nos anos 80 e que a estação preferida dos pioneiros dessa corrente social era Glacière, na linha 6. Curiosamente, uma estação que eu achava uma gracinha porque é toda vidraçada e é num trecho suspenso da linha, de onde se tem uma bonita visão da cidade. Jamais pensaria em me matar ali...

Coisas boas também acontecem

Queridos, sexta-feira em Paris! Acabo de chegar de uma balada chileno-cubana num barco (peniche) no Rio Sena... Pas mal! Tinha uma banda que tocava uma espécie de salsa-core. E o rio estava correndo muito rápido. Tudo isso foi atrás da catedral de Notre-Dame, lugar perfeito para beijar na boca... Mas hoje não tive vontade de chutar os casais que se beijavam na minha frente - como vinha acontecendo... Cenas que estavam me fazenso pensar "meu, que merda!"

Como eu já disse, Toulouse é pas mal. Mas em Paris é que as coisas acontecem para mim. Tenho amigos gente muito fina aqui, e ainda fiz uma nova amiga na quarta-feira. Andamos juntas na beira do Sena, falamos muito do lado mais íntimo de nossas vidas, de caras, de profissão, de mulheres, do exílio. Depois jantamos à luz de velas num restaurante italiano em St. Michel e voltei para casa quase no último metrô... E ela, tão sábia, encerrou a noite com um comentário maravilhoso: "Sabe o que é melhor? Se você fosse um cara eu ia chegar em casa toda empolgada, já fantasiando histórias alucinadas e achar que já estava me apaixonando de novo... mas como você é mulher, vou chegar em casa feliz da vida, depois de ter tido momentos ótimos, vou deitar tranqüila na cama e dormir como um anjo, contente por ter feito uma amiga. O que a gente precisa é de uma interlocutora atenta." Valeu, mulher, mandou bem!



É, gente, a viuvez vai ser interrompida por uns dias porque meu nêgo está no avião essa hora. Vamos beijar na boca ininterruptamente por dois dias em Paris, depois nos agarrarmos loucamente por três dias em Viena e finalizar juntinhos em Budapeste, durante cinco longas noites! Contudo, como isso é só a vida real, voltarei logo para meu bloguinho e para a minha vidinha de viúva rica e assanhada... me aguardem!

terça-feira, 15 de abril de 2008

Eu tenho direito à diferença?

Como no Brasil sou branca, de classe média, elite educacional, estou sempre do lado culpado da coisa. Mas aqui, como imigrante, mesmo de olho azul, abro a boca e o mundo sabe que sou estrangeira, e andei pensando se não tenho também direito à diversidade cultural. Para começar, já ninguém pensa que sou brasileira, porque a brasileira “certa” é a Iracema Lábios de Mel, só que já desvirginada – ou não, sei lá, tem gente que até paga por essas taras... E teria que ter um nome bem doido: uma vez me sugeriram Concepción... Tipo Jacqueline não tem nada a ver, vamos combinar! Daí sempre tenho que explicar que no Brasil tem gente de todos os cantos do mundo, inclusive da Europa. Ah, oui, c’est clair! Claro agora, depois que eu expliquei, né, mané. Então me perguntam qual a origem da minha família. E, na França, tive que me encontrar com a minha identidade italiana – só que sem o meu passaporte vermelhinho!
Passo seguinte são os homens me lançarem uns olhares lascivos: brasileira, hein...
E as mulheres me fazem cada pergunta, hoje uma me perguntou se todo mundo no Brasil era bien foutu, isto é, gostoso. Well, o que você responderia?
Dia desses cheguei numa roda, na École em Paris, e fui cumprimentar as pessoas com dois beijinhos (já começa que em São Paulo a gente dá um beijinho só... mas abraça com carinho os queridos), quando alguém me disse que eu não deveria ter beijado um cara, porque ele não gosta. Ele é de origem africana e deduzi que deve ser muçulmano. Todo o respeito pelas tradições do cara, mas e as minhas? Tinha eu então que pedir desculpa? Não era pior se eu chegasse na roda e beijasse todos os franceses brancos e deixasse só o negro imigrante de fora? ...e alguém ainda ia dizer que eu discriminei o cara porque ele era negro e imigrante... Uf!
Ainda no quesito, tenho que lidar além com os comentários dos brasileiros sobre a minha muito branca cor... Por que? Branco é estranho? Que medo!
Outra coisa, depilação aqui é caríssima! Tipo uns 50 EUR. E todo cientista social sabe que a cultura está impregnada no corpo e que o cuidado do corpo é uma das expressões mais importantes da identidade. Pois é, por questões econômicas estou impedida de cultivar um dos meus rituais corporais mais familiares... tenho que usar umas folhinhas de cera fria, muito das ruins por sinal, que deixam a pele toda grudenta e não finalizam com bom resultado. Fora a dor, é claro! Ai que saudade da Rose, a minha depiladora, que me chama de “bebê”, e da minha manicure, Marli. Pensaram que quando eu me referia à solidão estava falando só de sexo? Erraram...
Estou então a exigir que o estado francês crie uma aide social soin du corps ou que o estado brasileiro crie uma bolsa-depilação para as exiladas, porque estou sendo submetida a tratamento degradante. Onde estão os direitos humanos nessa hora?
Não pense que estou esculhambando. Eu é que estou sendo esculhambada!

Amigas, queridas, cortei o cabelo e comprei um sapato tipicamente francês, olha só a foto! A forma dos sapatos aqui é incrivelmente confortável, mas a tinta do couro tem um cheiro horrível.

O marido da "viúva rica"

Olha o e-mail que meu amor me mandou hoje:

"Coração, o que sinto por você (e também sinto que você sente o mesmo por mim) é uma coisa muito boa (coisas do amor..) e isso nos dá liberdade e segurança. Fico muito tranqüilo nisso, onde você e eu sabemos nossos “limites”... genuinamente pelo cuidado que temos um pelo outro. Acho que estou bem mais “madurinho” nisso! Gosto de você com todo seu estilo!... sinta-se muito confortável nisso. Pra mim é estimulante ter você assim! Sucesso em seu “bloguinho”!
Te amo muito
Faltam 4 dias pra gente ficar juntinho! Oba!"

Praça pós-moderna


Eu moro na Place Arnaud Bernard. Dizer isso para um toulousano é dizer muitas coisas. A praça está nos limites do que foi a antiga cité, isto é, a cidade murada medieval. Há menos de 2 séculos – o que é um nada ridículo para a história deste lugar – o muro (remparts) passava ao lado aqui de casa. No traçado dos muros foram construídos os boulevards, evidentemente todos ornados com os plátanos – que neste momento estão recuperando suas folhas e a paisagem invernal vai dando lugar a uma atmosfera quase-tropical.
Bem, Arnaud Bernard, desde antigamente é um lugar de mercado. Vende-se de um tudo por aqui. Três dias na semana são as feiras: de livros, de horti-fruti. Na Arnaud Bernard pós-moderna vende-se de um tudo também, inclusive “ervas que curam e acalmam / que aliviam e temperam”. Faça chuva ou faça sol, a praça é um movimento constante. Tem momentos em que dezenas de homens árabes estão vendendo os pacotes de cigarro contrabandeados ou falsificados, que vêm da Espanha ou da Suíça, onde o imposto sobre o cigarro é mais barato do que na França. Os muito maldosos disseram que até os policiais compram cigarro em Arnaud Bernard, mas eu nunca vi. Então, a qualquer momento em que passar, você escuta uma onda de ecos: “cigarretes, cigarretes, cigarretes”. “Bonjour, miss, madame, mademoiselle, cigarretes?”
Mais à noitinha eles oferecem “xit”, ou haxixe. Disseram-me que se você se aproximar e pedir, eles trazem outras drogas, é só encomendar. Isto quer dizer, minha gente, que eu moro na boca! E é certamente o lugar mais seguro onde já morei na vida.
Por causa desse movimento todo, a praça é cheia de comércios árabes: restaurantes marroquinos, doceiras orientais, kebabs, açougues que vendem carne hallal (isto é, produzida conforme a tradição muçulmana), LAN house, bar maure (uma espécie de boteco, onde não vende álcool e onde só entram homens).
Aos domingos, é o auge! São centenas de pessoas falando árabe de todos os cantos da África, vestidos com suas roupas tradicionais, que circulam por aqui em direção ao mercado de Saint-Sernin, que é aqui ao lado. Lá é o bazar ­– o que você puder imaginar que alguém possa vender lá tem, até meia usada! Incluindo, claro, eletrônicos, celulares, tecidos brocados e bordados, almofadas, calcinhas, comida. Tudo ao mesmo tempo agora. Arnaud Bernard bouge!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Blog estréia com polêmica

Bem, a estréia tem sido um sucesso! Uns tão com dó de mim... outros tão me achando ousada... outros só viram a perna e não notaram que o destaque é a meia de rendinha francesa! Cara, tem gente que não consegue abstrair!!! Tem gente que já me perguntou se eu, estando na França, deixei de me depilar, pode? Outros ainda tão me achando até supercontrolada... será que querem que eu perca o controle? A ver.

Ville rose contre le ciel bleu



Estou escrevendo esse blog na minha mente há um tempo. Os últimos dias foram muito agitados, muitas coisas acontecendo, muitas emoções sendo vivenciadas. E eu sempre sozinha, sempre comigo mesma, com meu eu interior e o meu próprio corpo como referência. Ah, isso vai dar merda!


Essa é a basílica de Saint-Sernin, que foi o primeiro bispo daqui e foi morto. Mártires do começo do cristianismo. Lá tem umas relíquias de um monte de gente que foi mártir. Pensei que o objetivo de todo cristão era ter um enterro cristão, mas os cristãos mais descatados ficam por aí aos pedaços... vai entender a galera!

Histeria mal-humorada


Depois de estar em Toulouse há um mês e meio, encontro pouquíssimas pessoas. Reclamo de solidão e isolamento nos poucos contatos que tenho com o mundo exterior e ouço um discurso super bem-intencionado ­– eu sei! – mas que, sinceramente, me irrita demais!

“Aproveite e trabalhe bastante!” – Porra, o que as pessoas pensam, que eu não trabalho o suficiente na minha vida cotidiana e preciso ficar isolada do mundo para trabalhar? Ou pensam que eu posso trabalhar 24 horas por dia? Trabalhe, minha filha, trabalhe e não pense... se você pensar vai ver que sua vida está uma merda... não pense, pensar é anti-capitalista! Quanto mais você trabalhar, mais vai provar que é uma pessoa feliz! E viva a ética protestante!

“Ficar sozinha é bom!” – ora, se fosse bom, isso não precisaria ser dito, seria o óbvio. E se fosse bom, não haveria tantas pessoas procurando um parceiro para dividir a vida! Ficar sozinho é bom quando os outros enchem o seu saco... mas quando você tem um grande amor para viver... sinceramente, é sem propósito.

“É bom para o auto-conhecimento” – Conhecer-me mais? Sou a pessoa que mais me conhece e a que mais conheço também. Tá bom, já, chega! Quero conhecer outras pessoas! Por isso sou socióloga, porra! E quanto mais me conheço mais me acho muito louca e mais me canso dos meus pensamentos. Também me divirto com eles, às vezes.

É, mas é verdade que tem um outro lado. Como a maior parte dos meus contatos com outros seres humanos é no comércio e nos comunicadores instantâneos, tenho batido papos incríveis com os árabes comerciantes – sempre dispostos a conversar comigo, boire un verre, e como se diz naqueles anúncios de jornal, “um algo mais, se afinidades”. Eram papos aos quais eu não prestava muita atenção antes e agora são os motivos dos sorrisos que emito. E tem os amigos fazendo comentários das fotos no msn (e espero os do blog, hein, galera!). Ah, quem tem amigos como os meus pode se dar ao luxo de envelhecer com dignidade. Valeu, boys! El movimiento es sexy!





Bem, e tem os caras, claro! Aqueles que eu nunca tinha visto na vida e que hoje ocupam uma boa parte dela! Tem o cara das reciprocidades rompidas, tem o que me põe para baixo, tem o que põe para cima, tem o que toma a minha bebida, tem o que paga a minha conta. Tem o meu vizinho, a quem escuto fazendo quase tudo, menos aquilo, mas aquilo outro incluído. Tem meu melhor amigo na França, que reclama e acha isso pouco. E tem “o” cara: emagreço um quilo se você acertar quem é ele... Mas falo de cada um de uma vez, porque se juntar todos ao mesmo tempo vira uma suruba... uma suruba gay! El movimiento es muy sensual!